domingo, 22 de fevereiro de 2015

PRÁTICAS DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS


APRESENTAÇÃO À DISCIPLINA

 A cada disciplina que se inicia, costumávamos a nos apresentar, (alunos e professores) e  vice-versa. Geralmente, a apresentação era feita oralmente: primeiro o(a) professor(a) e depois os alunos, porém, nessa disciplina, nos apresentamos por meio de um pequeno texto onde uma palavra ou expressão revela o real motivo que nos levou à opção por Pedagogia. A expressão escolhida por mim foi: "Banca de Estudos", um grande impulso para minha  escolha. 

Considerando que a disciplina refere-se à leitura e produção de textos, faz sentido, iniciarmos a primeira aula, produzindo e posteriormente fazendo a leitura de nossa produção, ao passo que, dessa forma, todos se conheciam diante de cada leitura exposta. Foi muito interessante.

Práticas de Leitura e Produção de Textos - 1ºSemestre
                                                            Docente: Maria  Antonia            


                                                            BANCA  DE ESTUDOS


Eu, CELESTE MARIA FONSECA MENEZES, confesso ser uma pessoa que desde criança gostava de brincar de  ensinar. Não pensava em ser professora, mas há um tempo atrás, substituindo uma irmã, que dava reforço escolar em casa, percebi que era muito bom passar conhecimentos para quem precisa. A partir desse dia, fiz do ensino, com crianças, que por alguma razão, estavam sozinhas no momento de fazerem seus deveres extraescolar, um trabalho prazeroso.

Hoje, retorno à sala de aula como estudante, mas ciente de que muitas das crianças que estiveram comigo uma parcela de seu tempo, já estão na faculdade. Fico feliz em ter contribuído para isso.

Na Banca eles tiram as dúvidas e reforçam assuntos, que por algum motivo, não entenderam na  sala de aula. Há onze anos, eu dou banca a crianças do ensino fundamental.

Minha Banca chama-se BEC (Banca de Estudos Céu).


                                                   Celeste Maria Fonseca Menezes
                                   Discente/Graduanda em Licenciatura em Pedagogia
                                           Universidade do Estado da Bahia - UNEB
                                     Práticas de Leitura e Produção de Textos - 1ºSemestre
                                                            Docente: Maria  Antonia

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Ementa: Fundamentos teóricos das práticas de leitura. Constituição do sujeito leitor/autor. Diversidade dos gêneros textuais. Alternativas metodológicas para a formação do leitor e do produtor de textos.


Atividades avaliativas nessa disciplina:


1ª Unidade - Seminário e prova sobre gêneros textuais;


2ª Unidade - Construção escrita de um Memorial de leitura e prova sobre Texto e Contexto e Intertextualidade;

3ª Unidade - Seminário em grupo sobre um dos textos estudados. Nosso grupo escolheu: Texto e Contexto.



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TIPOLOGIA TEXTUAL E GÊNEROS TEXTUAIS

Este foi o primeiro assunto a ser estudado para a prova da disciplina Prática de Leitura e Produção de Texto.  Começamos por definir as tipologias textuais como: Narrativo, Descritivo, Instrutivo ou Explicativo, Argumentativo, Injuntivo ou Apelativo, Expositivo e Texto Poético.


1. Texto Narrativo -  Esse tipo de texto relata fatos e acontecimentos, reais ou imaginários, situados no tempo.  Não existe texto puramente narrativo, por exemplo: "A mulher se aproximou da penteadeira e pegou o estojo de maquiagem,..." fazemos também uma descrição.

2. Texto Descritivo - Esse tipo de texto representa objetos e personagens que participam do texto narrativo, Na verdade, contar uma história é mesclar narrações e descrições. Assim como o texto narrativo, não existe texto puramente descritivo, por exemplo: "O jardim é retangular com muitas rosas e cravos..."

3. Texto Instrutivo ou Explicativo -  Com uma linguagem objetiva, esse tipo de texto não se confunde com os textos de natureza artística e literária. Exemplos: texto da imprensa, do professor, dos relatórios técnicos ou científicos. Procura transmitir conhecimentos e analisar um fenômeno ou uma teoria, prestando-se ao uso didático.

4. Texto Argumentativo - Esse texto procura convencer, propondo ou impondo ao receptor uma interpretação particular de quem o produz. Por isso, visa defender uma tese ou rejeitá-la. O texto argumentativo não se confunde com os textos informativos. Em geral, o desenvolvimento de uma argumentação comporta três etapas: Tese, Argumentos e Provas.

• Tese - enuncia o ponto de vista que será objeto de demonstração;

•Argumentos - elementos abstratos, geralmente apresentados em ordem crescente de importância e que justificam a tese;

• Provas -  que sustentam os argumentos e que devem ser elementos concretos como: fatos ocorridos, depoimentos ou citações de intelectuais reconhecidos, fatos históricos, etc.

5. Texto Injuntivo ou Apelativo -  A palavra injunção significa ordem formal, imposição, exigência. Uma das formas verbais do texto injuntivo é o imperativo. Os textos injuntivos exemplificam  o uso da linguagem em sua função apelativa ou conativa. É o tipo textual em que se constroem as instruções.

6. Texto Expositivo - É o modo de produção de texto em que o tema é apresentado sem juízo de valor.

7 - Texto Poético - É o texto que valoriza sons, ritmos e a variedade de sentidos.

Cada tipo textual é definido pela determinação das relações internas da organização estrutural do texto.

Quando o autor quer contar um caso, apresentar os fatos, ele produz uma narrativa.

Quando o autor quer caracterizar, dizer como é um objeto, fazendo o leitor conhecê-lo ou reconhecê-lo, ele está recorrendo à descrição.

Quando o autor deseja refletir, explicar, avaliar, comentar, conceituar, expor ideias, pontos de vista, para dar a conhecer, para fazer saber, fazer crer, associando-se à análise e à interpretação, ele vai optar por um texto dissertativo, predominantemente, expositivo e argumentativo.

O autor utilizará o texto injuntivo, se sua intenção for incitar a realização de uma ação por parte do interlocutor, orientando-o e aconselhando-o como fazê-lo.

É importante compreender a constituição  de cada tipo textual e perceber que ele não acontece isoladamente. Um mesmo texto pode ter mais de uma sequência tipológica.

Os gêneros textuais são classificados quanto sua composição, conteúdo, estilo, intergenericidade e heterogenericidade, no livro LER E ESCREVER de Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias no capitulo sobre gêneros textuais.

 Segundo Bakhtin (1977):

"Todo gênero possui uma forma, composição, e um plano composicional e estão sempre presentes em enunciados, se diferenciam pelo conteúdo temático e estilo, e todo gênero é marcado pela sua esfera de atuação que faz com que os modos se combinem ao conteúdo ao propósito estilo e composição do texto".


Para se fazer uma boa leitura de um texto ou até mesmo construí-lo devemos levar em consideração a forma como ele está sendo escrito, sua estrutura e em que situação ele está sendo usado, há vários tipos de textos, cartas, emails, anúncios, artigos, poesias, piadas, contos, vários estudiosos da linguagem fizeram um levantamento dos gêneros com objetivo de poder classificá-los, mas não obtiveram sucesso, devido grande parte dos gêneros ser de origem sóciocomunicativas e que estão constantemente sofrendo variações e também por na maioria dos casos estarem mesclados com outros gêneros.

Pela competência metagenérica, uma poesia se estrutura em estrofes e versos com rimas ou sem rimas; um artigo de opinião se estrutura em torno de um ponto de vista e da argumentação em sua defesa; a tirinha se estrutura em enunciados curtos, bem humorados,constituídos em balões, para representar a "fala! de personagens destacando-se nessa composição o verbal e o não-verbal.

A composição do gênero tem que ser levada em conta a forma que se organiza e distribui as informações e os elementos utilizados para ilustrar cada tipo de texto.Isto é, considerar a forma de organização, a distribuição das informações e os elementos não-verbais: a cor, o padrão gráfico ou a diagramação típica, as ilustrações.

Uma notícia tem função preponderante de informar, texto veiculado em jornal, em sua organização e estilo, destacam-se o modo de distribuição das informações, os elementos não-verbais e a "objetivação" do discurso.

Do ponto de vista conteúdo temático, na poesia predomina  a expressão dos sentimentos do sujeito, sujeito esse, que fala de si e dá vazão a emoções, constituindo-se preponderantemente, na primeira pessoa; No artigo de opinião, veiculado em revistas e jornais, o conteúdo, geralmente consta de acontecimentos de ordem política, econômica, social, histórica ou cultural, e raramente sobre acontecimentos ou vivências pessoais; Na tirinha, o conteúdo esperado é uma crítica bem humorada a coisas do mundo, modos de comportamento, valores, sentimentos.

Em se tratando de estilo, na poesia, há a expressão máxima do trabalho do autor nas escolhas realizadas para a constituição do dizer; No artigo de opinião, geralmente, exige-se característica de estilo de comunicação formal, dirigida a um grupo privilegiado social, econômico e culturalmente; Na tirinha, apesar da escassez do espaço, que exige do autor uma produção leve, a forte expressão do trabalho do autor marcada geralmente, por maior grau de informalidade.

Uma notícia, cuja produção textual em que o autor se evidencia na mobilização de duas formas composicionais para fazê-las funcionarem simultaneamente superpostas uma a outra: um artigo de opinião sob a forma de receita culinária. Chama essa mesclagem de gêneros de hibridação, ou seja, um gênero pode se compor de vários gêneros

A partir dessas considerações sobre estilo, conteúdo e composição dos gêneros textuais, pode-se afirmar que:

os gêneros textuais podem sofrer variações em sua unidade temática, forma composicional e estilo;

todo e qualquer gênero textual possui um estilo  que pode ser favorável como o gênero literário e não favorável como documentos oficiais e notas fiscais, 

os gêneros textuais não se definem por sua forma, mas por sua função. Por exemplo: um artigo de opinião em formato de receita culinária continua sendo artigo de opinião, por sua função.

Gêneros textuais e intergenericidade

Hibridização ou intertextualidade inter-gêneros - é o fenômeno segundo o qual um gênero pode assumir a forma de um outro gênero, tendo em vista o propósito de comunicação. Pode ser verificado em anúncios, tirinha e até mesmo em artigo de opinião.

Gêneros textuais e heterogenericidade tipológica - são formados por sequências diferenciadas denominadas tipos textuais: narrativo, descritivo, argumentativo, expositivo ou injuntivo.

Intertextualidade 

Podemos perceber a intertextualidade quando:

1. O autor recorre a outros textos, com explicitação da fonte. Ex:

"Antonio Callado, em sua última entrevista a esta Folha, disse que perdera todas as batalhas".

"Deixemos ressoar no coração as palavras de Mário Quintana. Se as coisas são inatingíveis, ora! Não é motivo para não querê-las [...]! Que tristes os caminhos, se não fora! A mágica presença das estrelas".

2. Além dos textos, cujas fontes foram reveladas, a produção escrita tem como origem, um outro texto sem a fonte explicitada, porque o autor pressupõe ser do conhecimento do leitor. Ex:

 "E agora José?"      

- Quem não conhece o texto de Drummond com esse título?

 "E agora José?

A festa acabou? Já não há mais PT? Não, José, de tudo isso fica uma grande lição: não é a direita que inviabiliza a esquerda. [...]"


Fonte: CHRISTO,Carlos Alberto Libâneo e Frei Beto, Folha de São Paulo, 25 de julho de 2005.

Outro exemplo de intertextualidade com ou sem explicitação da fonte:

Estudo com mais de 200 voluntários avalia atividade cardiovascular e endócrina comparada à satisfação pessoal.

Britânicos ligam felicidade à boa saúde.
Salvador Nogueira

Da reportagem local

Já dizia o poeta Vinícius de Moraes:" É melhor ser alegre que ser triste". E a comprovação médica dessa obviedade psicológica acaba de vir de três pesquisadores do University College, em Londres. Eles demonstraram que a felicidade está diretamente ligada ao bom funcionamento do sistema endócrino e cardiovascular. [...] com base no acampamento de 226 londrinos.[...]

Fonte: Folha de São Paulo,19 de abril de 2005.

Na leitura do texto verifica-se  à intertextualidade: Os enunciados. 

"É melhor ser alegre que ser triste".

Intertextualidade - é uma forma de diálogo entre textos que pode se dar de forma explícita, implícita ou em diversos gêneros textuais, ou outras formas além do texto, como música, pintura, filme, novela, etc. Toda vez que uma obra fizer alusão à outra, ocorre a intertextualidade.

A intertextualidade ocorre quando em um texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade. Ex: 

"O Ministério da Saúde adverte: o culto ao corpo faz mal à saúde".

É constatado a inserção de um outro texto - o intertexto constituído previamente e parte de nossa memória social: O Ministério da Saúde adverte:fumar faz mal à saúde.

Constata-se a intertextualidade porque o texto fonte faz parte de nossa memória social.

A intertextualidade explícita ocorre quando há citação da fonte do intertexto, como acontece nos discursos relatados, nas citações; nas referências; nos resumos; nas resenhas e traduções; nas retomadas de textos. Ex:

Paixão, segundo Nando Reis: "Faz muito tempo, mas eu me lembro, você implicava comigo. [...]"

A intertextualidade implícita ocorre sem citação expressa da fonte, cabendo ao interlocutor recuperá-la na memória para construir o sentido do texto, como nas alusões, na paródia, em certos tipos de paráfrases e ironias, nas charges.

Atividade  em sala de aula

1 .Estabeleça relação entre os gêneros textuais e as ordens de tipologia textual a que pertencem:

1.Narrar     2. Descrever     3. Argumentar    4. Expor    5. Instruir ou Prescrever

(   ) Relatos de experiência científica.
(   ) Texto de opinião.
(   ) Carta do leitor.
(   ) Constituições.
(   ) Carta de reclamação.
(   ) Carta de solicitação.
(   ) Contos de fadas.
(   ) Debate.
(   ) Editorial.
(   ) Requerimento.
(   ) Ensaio.
(   ) Texto explicativo.
(   ) Regras de jogo.
(   ) Bulas.
(   ) Estatutos.
(   ) Resenhas  críticas.
(   ) Regulamentos.
(   ) Crônica literária.
(   ) Artigo assinado
(   ) Resumos de textos expositivos.
(   ) Resenhas.
(   ) Seminários.
(   ) Fábulas.
(   ) Conferência.
(   ) Tomada de notas.
(   ) Verbetes de enciclopédia.
(   ) Regimentos.
(   ) Resumos de textos explicativos.

Resposta: 4/3/3/5/3/3/1/3/3/3/3/5/5/5/5/3/5/1/3/4/2/4/1/4/4/2 /4/5/4.

Texto para a próxima aula: Concepção de leitura.
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Concepção de Leitura

Texto  é o lugar de interação de sujeitos sociais.

Leitura é o processo pelo qual o leitor realiza um processo ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir dos seus objetivos e de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem.  

Leitura é atividade de captação de ideias do autor, sem se levar em conta as experiências e conhecimentos do leitor.

Leitura é uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação.

Foco de atenção da leitura - Autor e suas intenções e o sentido está centrado no autor, bastando tão somente ao leitor captar essas intenções.

Foco no texto - a concepção de língua, como estrutura corresponde a de sujeito determinado, "assujeitado" pelo sistema, caracterizado por uma espécie de "não consciência".

Texto, segundo a concepção de língua, como código, como mero instrumento de comunicação e de sujeito como (pré)determinado pelo sistema, é visto como simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando a este para tanto, o conhecimento do código utilizado.

A leitura exige do leitor o foco no texto em sua linearidade, uma vez que tudo "está dito no dito".

Foco na interação autor-texto-leitor - na concepção interacional (dialógica) da língua, os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, sujeitos ativos que, dialogicamente se constroem e são construídos no texto, considerando o próprio lugar da interação e da constituição dos interlocutores.

Sentido de um texto - é construído na interação, pois uma atividade interativa complexa de produção de sentidos, que se realiza evidentemente com base nos elementos linguísticos presentes no texto e na forma de organização.



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Histórias que os Jornais Não Contam

O rádio apaixonado

Moacyr Scliar


Rádio de carro aumentou volume sozinho até pifar, afirma leitora. "Comecei a observar que o rádio esquentava o botão se a frente fosse deixada nele. Logo depois, começou a ficar louco: aumentava o volume sozinho, até parar de funcionar". Ela disse ainda ter notado um som estranho que saía do interior do aparelho. "Só posso escutar o rádio com o carro ligado e, a cada vez que o ligo, ele está todo desconfigurado. O meu MP4 queimou ao ser ligado ao rádio". (10/03/2008) 


“MINHA QUERIDA DONA, sei que você anda se queixando de mim, publicamente, até. Você não pode imaginar o sofrimento que isto me causa, mesmo porque você provavelmente acha que rádios são objetos inanimados, sem vida própria.


Você está enganada. Ao menos no meu caso, você está enganada. Ao contrário do que você pensa, tenho sentimentos, tenho emoções. É em nome desses sentimentos e dessas emoções que lhe falo agora, tanto em AM como em FM. Na verdade, eu nem tinha tomado conhecimento de minha própria existência, até que fui instalado em seu carro.


Você estava muito feliz; tinham lhe dito que minha marca é ótima, e que você contaria com um som maravilhoso para lhe ajudar no estresse que é esse trânsito. E, eu colocado no meu lugar, você me acariciou, você tocou os meus botões. Senti um verdadeiro choque, eu que já deveria estar acostumado com eletricidade. Você fez de mim um ser vivo.


Vivo e apaixonado. Daquele momento em diante, passei a ansiar por sua presença. Era para você que eu queria transmitir as melodias que recebia por meio de tantas canções. Você ao volante, minha felicidade era completa.


Acontece que você não se deu conta disso, ou fingiu que não se dava conta disso. Você me ligava, você sintonizava uma emissora qualquer e pronto, voltava à sua vidinha. Pior: tratava-se de uma vidinha partilhada. Amigas embarcavam em seu carro. Amigos também. Você conversando com um homem, aquilo me dava ciúmes, ciúmes terríveis. O Bentinho, do Machado de Assis, aquele que desconfiava da Capitu, não sofreu tanto. Lá pelas tantas eu tinha ciúmes até do seu MP4.


Agora: o que poderia eu fazer? Humanos têm como demonstrar seus ciúmes, têm como descarregar a frustração. Mas eu sou um rádio, um bom rádio, mas rádio, de qualquer maneira. A mim não estava facultado fazer cenas. Recorri, então, àquilo que estava a meu alcance: o som.


Quando você estava com alguém de quem eu não gostava, eu aumentava meu volume -e volume, você sabe, é coisa que não me falta- até chegar a níveis insuportáveis, uma avalanche de decibéis. E aí, subitamente me calava. Para lembrar a você que o silêncio também fala, especialmente o silêncio dos traídos. Ah, sim, e queimei o seu MP4. Tinha de queimar: era ele ou eu.


Você foi se queixar com um técnico, achando que eu estava desconfigurado. Num certo sentido você está certa: estou desconfigurado, estou desfigurado, estou perturbado, mas tudo isso por causa do sofrimento que você me causou.

Querida dona, estas são minhas derradeiras palavras, antes de sair definitivamente do ar, antes do silêncio final. Minha última mensagem é esta: nunca brinque com os sentimentos de um rádio apaixonado. Você vai ter, no mínimo, surpresas desagradáveis.”


S     SCLIAR,Moacyr.Histórias que os jornais não contam.Ed.Agir,Rio

de Janeiro, 2009.


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Atividade sobre  textos indicados para estudo em sala de aula, observando que se trata de dois textos separados. O primeiro (texto 1) é um texto retirado de determinada seção do Jornal Folha de São Paulo em sua versão papel ou on-line. O segundo (texto 2) é uma criação do autor Moacir Scliar, também publicado no mesmo jornal, em seção própria. Foram formuladas e respondidas as seguintes questões:

1.Identifique e justifique que relação temática pode-se observar entre o texto 1 e o texto 2.

Intertextualidade. Há citação explícita, ou seja, o texto 2 se relaciona com o texto 1.

2. Descreva a situação-problema que desencadeia a história do texto.

- o ciúme do rádio pela paixão por sua dona.

   "[...] eu tinha ciúme até do seu MP4".

3. Quais as personagens principais do texto 2 e suas características?


- o narrador personagem e o rádio enciumado, apaixonado, vingativo, ameaçador, desconfigurado e desfigurado.


4. Você considera o desfecho da história do texto 2 coerente com o seu desenvolvimento? Justifique.

- Sim. O texto 2 emprega sentido ao seu desfecho quando menciona a ameaça do rádio se sentindo traído e enciumado.


5. Como o autor insere no texto 2 as falas das personagens? Dê exemplos.

- Entre aspas. Por exemplo: "Minha querida dona [...]
                                        [...] surpresas desagradáveis!"


6. Entre as várias ordens a seguir, identifique qual ou quais dela(s) os textos 1 e 2 parecem inserir-se. Justifique:[narrativa, relato,argumento, exposição, descrição de ações, instrução ou prescrição].

- Relato,(narrativa) predominante; argumento; exposição; descrição de ações.

7. Quanto ao título escolhido pelo autor e que aparece acima, você considera apropriado para a situação trazida pelo texto 2? Justifique.

- Muito apropriado. É relacionado uma diversidade de sentimentos do rádio para com a sua dona. 

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Concepção de Contexto  - Este foi o assunto que meu grupo apresentou em seminário.



CONCEPÇÃO     DE   CONTEXTO





A concepção de contexto é um conceito central do estudo em Linguística textual. O contexto é o reflexo das informações que acompanham o texto, cuja compreensão depende destas informações. A Linguística Textual constitui um novo ramo da Linguística que começou a desenvolver-se na década de 60, na Europa, e de modo especial, na Alemanha.

ANÁLISE TRANSFRÁSTICA

A Lingüística Textual apresenta como primeira fase a análise transfrástica, que tem como intenção estudar as relações sintático-semânticas, entre dois ou mais enunciados. E não se limita em uma só frase ou período. A análise transfrástica ainda não considerava o texto como objeto de análise, ou seja, os estudos partiam da frase para o texto.

Fenômenos “transfrásticos” são:

- a pronominalização,
- a seleção dos artigos (definido e indefinido),
- a ordem das palavras no enunciado,
- a articulação tema-rema entre enunciados sucessivos.

    (tema:informação conhecida, tema:nova informação) ex. Vc gosta de bolo? Gosto de bolo de chocolate.

- a concordância dos tempos verbais,
- a relação tópico-comentário e outros.
- o encadeamento de enunciados sem a presença de um conector.
 ex:Não fui à aula ontem:estive doente.

Nessa fase o contexto era visto apenas como o entorno verbal, ou seja, o co-texto. É através dos co-textos que se estabelecem as relações entre os elementos do texto e atribuímos propriedades a esses elementos.

Ex:                  "A bola que encontrei hoje é azul."
                       "O dono da bola é o rapaz que se tornou meu vizinho ontem."

Analisando os dois exemplos:
  • Azul é um atributo da bola.
  • A bola e o narrador se relacionam através do "encontro".
  • O rapaz e a bola se relacionam através da "posse" (ser dono).
  • O narrador e o rapaz se relacionam através da "vizinhança".
PRAGMATICISTAS

São lingüistas que se dedicam a estudar a língua por meio de seu funcionamento em situações concretas de uso. Assim, o texto passa a ser visto como o lugar de interação entre sujeitos sociais(pessoas, classes, grupos).É tarefa da Pragmática dizer qual é a função de um texto no contexto.
O texto era conceituado como uma sequencia ou combinação de frases, contudo, os pragmaticistas pregavam a necessidade de atribuir sentido a elementos textuais como os dêiticos  e as expressões indiciais de modo geral.

Dêiticos

Dêiticos são elementos linguísticos que indicam o lugar ( aqui ) ou o tempo
(agora) em que um enunciado é produzido e também indicam os participantes de uma situação do enunciado ( eu/tu ).

São dêiticos: os pronomes pessoais que indicam os participantes; os advérbios de lugar, que são marcadores de tempo ( agora, hoje, amanhã, etc.); os demonstrativos ( aqui, lá, este, esse, aquele, etc ).

Os dêiticos só podem ser entendidos se houver uma explicitação, mesmo dentro da situação de comunicação.

Por exemplo, um bilhete com a mensagem:

Eu quero que você vá hoje ao meu escritório.

O termo 'hoje' perde o sentido, se não houver um referencial da data em que o bilhete foi escrito. Também o pronome 'eu' deve estar, certamente, explícito no contexto, caso contrário, ninguém sabe a quem se refere. Por isso, diz-se que o termo 'dêixis' significa ''apontar para'.

Expressões indiciais

São expressões com valor dêitico , como por exemplo:  mais acima, logo ali, lá adiante,atrás de, entre muitas  e outras.

TEORIA DOS ATOS DE FALA  E TEORIA DA ATIVIDADE VERBAL

Com a teoria dos Atos de Fala e a Teoria da Atividade Verbal, passou –se a levar em conta o contexto sócio-cognitivo como necessário para estabelecer a interlocução entre duas ou mais pessoas.

Teoria dos Atos de Fala

Surgiu no interior da Filosofia da Linguagem, no início dos anos 60.Foi elaborada por John Langshaw Austin (1911-1960) e desenvolvida posteriormente por John Searle e outros.Eles entendiam a linguagem como uma forma de ação ("todo dizer é um fazer"). Chama-se ato de fala, toda ação realizada através do dizer.

Austin fez distinção entre três tipos de atos:

1. Ato locucionário       2. Ato ilocucionário        3. Ato perlocucionário



ATO  LOCUCIONÁRIO

É o ato de dizer algo. Formado de um ato de referência e um ato de predicação atribuindo certa propriedade, característica, estado ou comportamento.  Exemplo:
João é estudioso.

ATO  ILOCUCIONÁRIO

É o ato que realiza uma ação ao ser dito e atribui  a esse conjunto (proposições ou conteúdos proporcionais  a  uma determinada força de:
-  pergunta – João continua casado?
-  asserção (afirmação) – João continua solteiro.
-  ordem – João continue solteiro!
-  uma vontade – Tomara que João continue solteiro.

ATO  PERLOCUCIONÁRIO

 É quando há a intenção de provocar nos ouvintes certos efeitos (convencer, levar a uma decisão etc.).Por exemplo, na frase:

"O senhor está pisando no meu pé".

Nessa frase, realizo ao mesmo tempo três atos de fala: 

- o ato locucionário, o ato de dizer a frase.
- o ato  ilocucionário, o ato executado na fala.

Por fim, o ato perlocucionário, que é o de provocar um efeito em outra pessoa através da minha locução, influenciando em seus sentimentos ou pensamentos. Na situação descrita, para que o outro tire o pé de cima do meu.

O ato de fala pode ser ainda direto ou indireto
. um ato de fala é direto,

.quando é  realizado por meio de formas lingüísticas especializadas. Exemplo,

- uma entonação típica para perguntas; Que horas são?
- as formas imperativas  usadas para ordens ou pedidos;  Saia daqui.
- expressões como por favor, por gentileza, etc. tipicamente usadas para pedidos
  . ou solicitações, etc.  Por favor, traga-me um copo d'água.

 um ato de fala é indireto

 quando realizado por meio de formas lingüísticas típicas de outro tipo de ato. Nesse sentido, "dizer é fazer uma coisa sob a aparência de outra" . Exemplo:

Você tem um cigarro?
(pedido com aparência de pergunta)

 Quem enuncia essa frase não está perguntando se o locutário tem ou não um cigarro, mas sim pedindo-lhe que  dê  um  cigarro.

Como está abafada esta sala!
(pedido com aparência de constatação)

 Normalmente, quem enuncia essa frase não está simplesmente fazendo uma constatação sobre a temperatura na sala, mas sim pedindo que o locutário faça algo para amenizar o calor, como abrir as janelas, ligar o ventilador, o ar-condicionado,etc.
Você pode fechar a porta?
(pedido com aparência de pergunta)

 Quem enuncia essa frase não está perguntando sobre a (in)capacidade fisica do locutário de fechar a porta, mas sim pedindo-lhe que feche a porta. Seria estranho se o locutário pensasse que a pergunta é mera curiosidade e respondesse simplesmente sim ou não.

Teoria da Atividade Verbal

Desenvolveu-se principalmente em países da antiga URSS, inclusive a ex- Alemanha Oriental, com base nas ideias de  psicólogos e psicolinguistas  soviéticos como Leontev , Luria e Vigostsky.

De acordo com Vigotsky  ela parte do princípio de que linguagem é uma atividade social realizada para determinados fins.

Portanto, o locutor é responsável em levar ao interlocutor a compreensão da infor-mação ;

O  locutor deve realizar atividades lingüístico-cognitivas tanto para garantir a com-
preensão (tais como repetir, parafrasear, completar, corrigir, resumir, exemplifi-car, enfatizar, etc.), como para estimular facilitar ou causar a aceitação (fundamentar, justificar, etc).

Entre as atividades realizadas pela Teoria da Atividade Verbal, está a produção de inferências, porque “nenhum texto apresenta de forma explícita toda a informação necessária à sua compreensão”, há sempre elementos implícitos a ser recuperados pelo ouvinte/locutor.

As inferências desempenham um importante papel na interlocução, permitindo ao leitor estabelecer relações com o que se encontra implícito no texto e a partir do seu conhecimento de mundo e do conhecimento partilhado, obter a informação necessária para a compreensão total da mensagem. Exemplo:
-  Você trouxe as coisas que pedi?
-  As que estavam lá em cima?
-  Não, as que deixei no quintal.
-  Ah, vou buscá-las.

CONTEXTO  SOCIOCOGNITIVO

Toda e qualquer manifestação de linguagem ocorre no interior de determinada cultura, cujas tradições, cujos usos e costumes, cujas rotinas devem ser obedecidas e perpetuadas. Foi então que, aos poucos, outro tipo de contexto passou a ser levado em conta: o contexto sociocognitivo. Para que duas ou mais pessoas possam compreender-se mutuamente, é preciso que seus contextos sociocognitivos sejam pelo menos parcialmente semelhantes. Em outras palavras, seus conhecimentos (enciclopédico, sociointeracional, procedural, textual, etc.) devem ser ao menos em parte, compartilhados, uma vez que é impossível duas pessoas partilharem exatamente os mesmos conhecimentos. Ao entrar em uma interação, cada um dos parceiros já traz consigo sua bagagem cognitiva, ou seja, já é por si mesmo, um contexto. A cada momento da interação, esse contexto é alterado, ampliado, e os parceiros se vêem  obrigados a ajustar-se aos novos contextos que se vão originando sucessivamente.

Exemplo de um contexto sociocognitivo: Conversa de mãe e filha.




Conversa de mãe e filha

 

 

_ Manhê, eu vou me casar.

- Ah? O que foi? Agora não, Anabela. Não está vendo que eu estou no telefone?

- Por favor, por favoooooor, me faz um lindo vestido de noiva, urgente?

- Pois é, Carol. A Tati disse que comprava e no final mudou de idéia. Foi tudo culpa da...

- Mãe, presta atenção! O noivo já foi escolhido e a mãe dele já está fazendo a roupa. Com gravata e tudo!

- Só um minutinho, Carol. Vestido de... casar?! O que é isso, menina, você só tem dez anos? Alô, Carol?

- Me ouve, mãe! Os meus amigos também já foram convidados! E todos já confirmaram presença.

- Carol, tenho que desligar. Você está louca, Anabela? Vou já telefonar para o seu pai.
- Boa! Diz para ele que depois vai ter a maior festança. Ele precisa providenciar pipoca, bolo de aipim, pé-de-moleque, canjica, curau, milho na brasa, guaraná, quentão e, se puder, churrasco no espeto e cuscuz. E diz para ele não esquecer: quero fogueira e muito rojão pra soltar na hora do: “Sim, eu aceito”. Mãe? Mãe? Manhêêê!!! Caiu pra trás! Vinte minutos depois.

- Acorda, mãe...

- Desculpa, eu me enganei, a escola vai providenciar os comes e bebes. O papai não vai ter que pagar nada, mãe, acooooooorda. Ô vida! Que noiva sofre eu já sabia. Mas até noiva de quadrilha?!










Fonte:BRAS,Tereza Yamashita;BRAS,Luiz.Folha de S.Paulo,21 maio 2005.Folhinha.p.F8.

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