ANTROPOLOGIA E EDUCAÇÃO,
60h
Ementa: A construção do saber antropológico. A diversidade cultural:
etnocentrismo e relativização. Perspectivas teóricas, prática etnográfica e
método comparativo. O conceito de cultura como elemento estruturador do conhecimento
antropológico. Educação como mecanismo de reprodução cultural. Universos
simbólicos, a diversidade dos saberes e suas formas de transmissão. A
etnografia do universo educacional. Construção da sociedade brasileira e a
assimetria da diversidade. Antropologia da infância e horizontes de uma
educação para um humanismo plural.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO DESSA DISCIPLINA:
1. Uma visão de conjunto da antropologia e
de sua perspectiva
1.1. Os seres humanos: objetos e sujeitos
da antropologia
1.2. Diversidade cultural, etnocentrismo e relativização
1.3. Perspectiva antropológica da história
1.4. O conceito de cultura como chave para o entendimento da vida
em sociedade
2. Antropologia e Sociedade Brasileira
2.1. A sociedade brasileira e seus dilemas
2.1.1. Diversidade cultural e relações étnico-raciais
2.2. Folclore e cultura popular como
categorias políticas
3. Antropologia, Educação e Diversidade
Sócio-Cultural Brasileira
3.1. A escola como espaço sócio-cultural
3.2. Um modelo educativo e de sociedade: os PCN’s
3.3. Antropologia e formação de educadores: rumo a uma ética da
alteridade
AVALIAÇÃO:
A avaliação, pautada em um acompanhamento processual do
envolvimento dos alunos nas atividades realizadas no curso. Neste caso a
participação individual nas aulas, elaboração de fichamentos, resumos e
esquemas, outros trabalhos escritos, além da apresentação de seminários serão
os principais mecanismos para a avaliação.
1ª Unidade - Prova escrita sobre Cultura e Etnocentrismo.
2ª Unidade - Seminário sobre Etnocentrismo.
3ª Unidade - Seminário sobre o tema: Prática do Racismo na Formação de Professores.
2ª Unidade - Seminário sobre Etnocentrismo.
3ª Unidade - Seminário sobre o tema: Prática do Racismo na Formação de Professores.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA NO SEMESTRE PARA OS ESTUDOS DA DISCIPLINA
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Anete. & SILVÉRIO, Valter Roberto. (orgs.). Afirmando Diferenças. Montando
o Quebra Cabeças da Diversidade na Escola. Campinas, Ed. Papirus, 2005.
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Indígena na Escola. Novos Subsídios para Professores de 1° e 2° Graus.
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DE CASTRO, Eduardo B. Sociedades Indígenas e Natureza na Amazônia. In: SILVA,
Aracy Lopes & GRUPION I, Luís Donisete Benzi. A Temática Indígena na
Escola. Novos Subsídios para Professores de 1° e 2° Graus. Brasília,
MEC/MARI/UNESCO, 1995.
Na primeira aula dessa disciplina foi discutido o termo ANTROPOLOGIA, conceito, desenvolvimento, bem como outros termos relacionados:
• O que é o homem? - Ser humano.
• O que o mito para a Antropologia? - Narrativa de contos que definem o que seja o mundo.
• O que é a Antropologia? - é a ciência que estuda o homem por inteiro, como um todo, preocupando-se com os vários aspectos da existência humana.
• Como se deu o desenvolvimento da Antropologia?
A Antropologia
se desenvolveu com o estudo dos povos sem tradição escrita, obrigando
antropólogos a tentar entender língua, economia, religião, mitologia, leis como
partes de um todo e não como fragmentos estanques, tornando-se generalista ao
invés de especialista.
• Como se dá abordagem antropológica?
A
abordagem antropológica de base é a observação direta dos comportamentos
sociais a partir de uma relação humana. E o seu ponto de partida é a posição e
o ponto de vista do outro; estudando-o por todos os meios disponíveis, usando
dados históricos, fatos econômicos, material político, tudo deve ser incluído
no processo de entendimento de uma forma de vida social diferente.
• De que forma se realiza o trabalho de campo da Antropologia?
O
trabalho de campo é o modo característico de coleta de dados para
reflexão teórica. Requer uma vivência longa e profunda com outros modos
de vida, com outros valores e outros sistemas de relações sociais.
Experiência controlada através da comparação de uma sociedade com outra e
pela convivência com o mundo social.
• Qual a diferença entre a etnografia, a etnologia e a antropologia?
Segundo Laplantine,1996,p.25) “a etnografia, a
etnologia e a antropologia constituem os três momentos de uma mesma abordagem.
A etnografia é a coleta direta, e o mais minucioso possível, dos
fenômenos que observamos, por uma impregnação duradoura e contínua e um
processo que se realiza por aproximações sucessivas (...).
A etnologia
consiste em um primeiro nível de abstração: analisando os materiais colhidos,
fazer aparecer a lógica específica da sociedade que se estuda.
A antropologia,
finalmente, consiste em um segundo nível de inteligibilidade: construir modelos
que permitam comparar as sociedades entre si...” .
No final das contas, é tudo ANTROPOLOGIA.
No final das contas, é tudo ANTROPOLOGIA.
Segundo Laplantine (1996,p.21): “aquilo que tomávamos por natural em
nós mesmo é, de fato, cultural; aquilo que era evidente é infinitamente
problemático”. Isso é alteridade - Descoberta proporcionada pela distância em
relação a nossa sociedade.
Daí a
necessidade na formação antropológica do “estranhamento”, isto é, a
perplexidade provocada pelo encontro das culturas que são para nós as mais
distantes, levando tal encontro à modificação do olhar que se tinha de si
mesmo. Presos a uma única cultura ficamos
cegos às outras e míopes em relação a nossa.
A experiência e elaboração da
alteridade levam a ver aquilo que nem se consegue imaginar devido à dificuldade
em prestar atenção ao que é habitual, familiar, cotidiano e considerado
evidente.
• Principais características da perspectiva antropológica em relação aos seres humanos e o significado do que o autor denomina de "desnaturalizador do olhar"?
A
Antropologia em um certo olhar, um certo enfoque consiste em estudar o
homem por inteiro e em todas as sociedades humanas, ou seja, as culturas
da humanidade como um todo em suas diversidades históricas e
geográficas.
Nossas próprias
atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes
cidades são, muitas vezes, repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas.
Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o
confronto cotidiano com a diferença. As ideias etnocêntricas que temos sobre as
“mulheres”, os “negros”, os “empregados”, os “paraíbas de obra”, os
“colunáveis”, os “doidões”, os “surfistas”, as “dondocas”, os “velhos”, os
“caretas”, os “vagabundos”, os gays e todos os demais “outros” com os quais
temos familiaridade, são uma espécie de “conhecimento” um “saber”, baseado em
formulações ideológicas, que no fundo transforma a diferença pura e simples num
juízo de valor perigosamente etnocêntrico.
Existem cinco áreas da antropologia que o pesquisador deve estudar ao trabalhar de maneira ampla:
1 – Antropologia Biológica
– consiste no estudo das variações dos caracteres biológicos do homem
no espaço e no tempo. Sua problemática é a das relações entre o
patrimônio genético e o meio (geográfico, ecológico, social), ela
analisa as particularidades morfológicas e fisiológicas ligadas a um
meio ambiente, bem como a evolução destas particularidades. (p 17)
2 – Antropologia Pré-histórica
– É o estudo do homem através dos vestígios materiais enterrados no solo
(ossadas, mas também quaisquer marcas da atividade humana). Seu
projeto, que se liga a arqueologia, vida reconstruir as sociedades
desaparecidas, tanto em suas técnicas e organizações sociais, quanto em
suas produções culturais e artísticas. (p 17)
3 – Antropologia Linguística
– A linguagem é, com toda evidência, parte do patrimônio cultural de
uma sociedade. É através dela que os indivíduos que compõem uma
sociedade se expressam e expressam seus valores, suas preocupações, seus
pensamentos. Só o estudo da língua permite: Compreender como os homens
pensam o que vivem e o que sentem; como eles expressam o universo e o
social; como, eles interpretam seus próprios saber e saber-fazer.
4 – Antropologia Psicológica
– Consiste no estudo dos processos e do funcionamento do psiquismo
humano. Somente através dos comportamentos – conscientes e inconscientes
– dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a
qual não é antropologia. É a razão pela qual a dimensão psicológica (e
também psicopatológica) é absolutamente indissociável do campo do qual
procuramos aqui dar conta.(p 19)
5 – Antropologia Social e Cultural
(ou etnologia) – Diz respeito a tudo quanto constitui sociedade: seus
modos de produção econômica suas técnicas, sua organização política e
jurídica, seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento,
suas crenças religiosas, sua língua.
Próximo texto: ETNOCENTRISMO
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ETNOCENTRISMO
Esse assunto foi muito discutido em sala de aula Etnocentrismo. Um
conceito antropológico que se refere à avaliação que
um indivíduo ou grupo de pessoas faz de um grupo social diferente do seu,
apenas baseada nos valores,
referências e padrões adotados pelo grupo social do qual o próprio indivíduo ou
grupo fazem parte.
Essa
avaliação é, do ponto de vista específico, um tanto preconceituosa. Do
ponto de vista intelectual, define-se como a dificuldade de pensar a
diferença, de ver o mundo com os
olhos dos outros.
O fato de que o homem
vê o mundo através de sua cultura,
tem como consequência a tendência a considerar o seu modo de vida como o mais
correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é
responsável em seus casos extremos pela ocorrência de muitos conflitos
sociais.
Não
existem grupos superiores ou
inferiores, mas grupos diferentes.A tendência do ser humano nas
sociedades é de repudiar ou negar tudo que lhe é diferente ou não está
de acordo com suas tendências,costumes e hábitos.
Estudamos esse assunto, "Etnocentrismo"
no livro: O que é etnocentrismo? do autor Everardo Rocha e muito
interessante é uma história que ele conta referente ao etnocentrismo e
nos faz entender muito bem esse termo. A história é a seguinte:
"Ao
receber a missão
de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para
vir ao
Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese.
Muito
generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.;
modesto,
comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de
acender
luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a
hora
sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias
inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades
tribais
do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois,
fez-se
amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de
sua
pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente, do
barulhento,
colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava
frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o
pastor
perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem
índio.
A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o
apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando
seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia,
o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e
contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse
a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase
indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários
metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o
sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.
Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Sua
tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã,
dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus
colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: “A catequese e os
selvagens”. Levantou-se, deu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez.
Era hora de ir. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou
detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes,
bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e
sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda
pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu
relógio.
Esta história, não necessariamente verdadeira, porém, de toda
evidência, bastante plausível, demonstra alguns dos importantes sentidos da
questão do etnocentrismo.
Comentário da história - Em primeiro lugar,
não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou
ainda pastor) para perceber que, neste choque de culturas, os personagens de
cada uma delas fizeram, obviamente, a mesma coisa. Privilegiaram ambos as funções
estéticas, ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro”,
desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. Para o pastor, o uso
inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem
índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. Cada um “traduziu”
nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido
original foi forjado na cultura do “outro”. O etnocentrismo passa exatamente
por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo
do “eu”.
Em segundo lugar, esta estória representa o que se poderia chamar, se isso
fosse possível, de um etnocentrismo “cordial”, já que ambos – o índio e o
pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores consequências. Outras
vezes, o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma
forma bastante violenta. Como por exemplo, pode colocá-lo como “primitivo”, como
“algo a ser destruído”, como “atraso ao desenvolvimento”, (aliás, muito
comum e de uso geral no etnocídio, na matança dos índios).
Em terceiro lugar, a
estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura, da qual falamos na nossa
sociedade, são apenas uma representação, uma imagem distorcida que é manipulada
como bem entendemos. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária
para falar de si mesmo.
Everardo
P. Guimarães Rocha O QUE É ETNOCENTRISMO? 1ª edição 1984 5ª edição editora brasiliense 1988.
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